2. Manoela Ferraz

Londres nunca me pareceu tão fria como hoje.

Não por causa da temperatura lá fora — que na verdade está mais amena do que o normal — mas por dentro. Por causa da bagunça silenciosa que me acompanha desde que voltei da casa do meu pai depois da aula.

Ele estava deitado no sofá, o rosto pálido e as mãos trêmulas, agarrando o controle remoto como se pudesse distraí-lo da dor que se recusava a admitir sentir. Trouxe-lhe um chá, mas ele não bebeu. Disse que estava cansado. E eu entendi.

Talvez mais do que eu gostaria.

Ele vem piorando há semanas. Ele esconde isso, claro. Meu pai sempre foi um daqueles homens que acreditam que doença é fraqueza, que sofrimento é um luxo. Mas eu vejo nos olhos dele. O cansaço. O medo. A fragilidade que ele tenta esconder atrás de piadas ruins e do noticiário da noite.

O pior é não ter minha mãe aqui para compartilhar o peso.

Ela morreu há pouco mais de um ano. Câncer. Aquele tipo de câncer que leva a gente de repente, sem deixar tempo para negociar. E foi a dor dela que me trouxe de volta para o meu pai — depois de anos de distância, acusações e silêncios que se prolongaram demais.

No fim, foi ele quem me ajudou a conseguir a bolsa para estudar gastronomia aqui. E eu prometi que faria tudo valer a pena. Mesmo quando meu coração doía. Mesmo quando perdi o namorado com quem eu achava que passaria o resto da vida.

Ele me disse que precisava de espaço. Tradução: ele tinha outra pessoa.

Isso aconteceu três dias depois do funeral da minha mãe.

Eu nem sequer tive a chance de realmente odiá-lo.

Eu me senti... vazia.

É por isso que estou aqui, às oito e meia da noite, no meu terceiro turno da semana no The Hollow Oak. O pub fica cheio às sextas-feiras — e esta noite não é diferente. Muita gente, risadas altas, boa música e copos se acumulando no balcão como se houvesse um prêmio no final da noite.

"Manu!" O gerente me chama. "A mesa sete pediu mais duas rodadas. Se liga!"

"Já estou providenciando", respondo, pegando a bandeja com as bebidas.

Eu sorrio para os clientes, mesmo quando não estou com vontade. Anoto os pedidos. Anoto as gorjetas. Troco piadas com os bêbados simpáticos e ignoro os comentários dos tarados. Faz parte do trabalho.

Londres me ensinou a fingir muito bem.

Foi quando voltei ao balcão para pegar mais gelo que o vi pela primeira vez.

Ele está caminhando em minha direção — alto, elegante, com uma postura que sugere certo poder. Sua camisa social clara está com as mangas arregaçadas, revelando músculos sutis, porém definidos. Ele tem uma barba por fazer e seus cabelos loiros ondulados estão levemente despenteados, como se ele tivesse passado a mão por eles mais de uma vez.

Mas são os olhos dele que me param. São dourados.

Sim, de ouro.

Como mel aquecido pela luz da tarde.

Ele se aproxima e pede uma cerveja amarga. Eu lhe dou meu melhor sorriso profissional.

"Temos uma IPA que cumpre bem a sua função", digo, servindo-a sem hesitar.

"Parece que você sabe do que está falando."

"Trabalhar aqui por dois anos me rendeu um diploma informal em ressacas", brinco, e ele sorri.

É um sorriso pequeno e tímido — como se ele não o fizesse com frequência. E, no entanto, é lindo. Um pouco triste. Mas lindo.

"Parece que vim ao lugar certo."

Conversamos por alguns segundos. Trocamos algumas frases sobre o tempo — tão britânicas que chegam a ser ridículas — e ele comenta sobre o sol suspeito que tivemos hoje. Respondo que também fico desconfiada quando o céu resolve ser generoso. Ele ri, e o som é rouco, baixo, quase íntimo.

Mas logo um dos amigos dele grita, nos provocando, e ele volta para a mesa dele. Mesmo assim, noto que ele vira a cabeça para me olhar mais uma vez antes de se sentar.

E eu? Volto ao trabalho como se nada tivesse acontecido.

Mas algo aconteceu.

O bar fica cada vez mais cheio, barulhento e caótico. Os clientes estão claramente mais bêbados. Uma mulher vomitou atrás do sofá na área externa. Dois caras começaram a discutir por causa de uma aposta na mesa de sinuca. Uma sexta-feira típica.

Meu turno terminou há vinte minutos, mas fiquei para ajudar. E também... para ver se a loira de olhos dourados voltaria ao balcão.

Ele não fez isso.

Quando finalmente tiro o avental e me preparo para sair, vou ao banheiro feminino para lavar o rosto. No caminho, ouço um som abafado vindo do banheiro masculino. Algo entre um soluço e o som de alguém... vomitando.

Bato levemente na porta.

"Ei? Você está bem aí dentro?"

Sem resposta.

Empurro a porta devagar. Lá está ele. O homem com a camisa enrolada, ajoelhado no chão, mãos nos joelhos e a cabeça baixa. O cheiro não é dos melhores. Mas o que me preocupa é o seu estado.

"Ei... você está bem?"

Ele levanta os olhos lentamente, como se emergisse de um lugar profundo. Seus olhos estão vidrados, com as bordas avermelhadas.

"Emma..." ele murmura, quase num sussurro. "O bebê... eu a vi... eu..."

Não entendo nada disso. Mas reconheço o tipo de dor.

Esse homem não está apenas bêbado. Ele está destruído.

"Quer que eu ligue para seus amigos?", pergunto, agachando-me um pouco para ficar na altura dele.

"Não... por favor..." Ele estende a mão e segura meu pulso — firme, mas não agressivo. "Leve-me para casa."

"Para a sua casa?"

Ele apenas acena com a cabeça, com dificuldade. Sua testa está suada. Seus olhos estão vidrados. Todo o seu orgulho ficou para trás naquele chão frio do banheiro do pub.

Suspiro e me endireito.

"Certo. Espere aqui."

Volto ao bar e falo com o gerente. Digo a ele que alguém passou mal e que vou ajudar. Ele bufa, mas não me impede. Meu turno já tinha acabado mesmo. Pego minha bolsa, visto meu casaco e volto para o banheiro.

"Vamos lá", digo, estendendo a mão.

Ele tenta se levantar, tropeça e ri de si mesmo. Então eu o ajudo com cuidado. Ele é pesado, mas mais consciente do que eu esperava. Com o braço dele em volta dos meus ombros, seguimos para o estacionamento.

"Onde está seu carro?"

Ele aponta, com o dedo trêmulo, para um Volvo preto. Caminhamos até lá e eu o ajudo a destrancar o carro.

"Tem certeza de que quer ir sozinho?"

"Só me leve até lá... é só isso... por favor."

Assinto lentamente. Ainda não sei por que estou dizendo sim a um homem que acabei de conhecer — um completo estranho —, mas algo nele, o jeito como aqueles olhos dourados ainda ardem mesmo em meio à dor, me diz que ele não é perigoso. Ele é apenas... quebrado. Como eu.

"Dê-me as chaves", peço, estendendo a mão.

Ele procura nos bolsos e me entrega os objetos sem resistência. Seus dedos roçam os meus por um segundo, e sua pele está fria.

"Entre", digo, dando a volta no carro e abrindo a porta do motorista.

Ele se acomoda com dificuldade no banco do passageiro, encostando a cabeça na janela como se aquele único movimento tivesse drenado toda a força que lhe restava.

Ligo o carro e saímos do estacionamento devagar. A cidade ainda está vibrante lá fora — cheia de luzes, vozes e caos. Mas dentro deste carro, tudo parece mais silencioso.

Não trocamos uma única palavra.

E, no entanto, sinto que esta noite algo vai mudar.

Não sei o quê.

Não sei porquê.

Mas eu sinto isso.

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