TO ruído abafado do corredor da faculdade mal chega até mim, escondida nesta pequena cabine do banheiro feminino. Sento-me no vaso sanitário, com os joelhos pressionados contra o peito, o corpo encolhido enquanto tento conter o turbilhão que explode dentro de mim.
Em minhas mãos, o teste de gravidez. O objeto que carrega o peso das últimas semanas, de cada decisão que me escapou por entre os dedos.
Foi um mês difícil — talvez o mais difícil da minha vida.
Desde que meu pai começou a ficar doente, tudo mudou. Aquele homem forte e teimoso que sempre foi meu porto seguro, meu alicerce, mal conseguia sair da cama. As noites se transformaram em longas vigílias, entre medicamentos ineficazes, consultas agendadas e um vazio crescente que me consumia.
Tentei ser forte, o máximo que pude. Mas o trabalho no bar, as aulas na faculdade e os cuidados com ele começaram a pesar demais.
Naquela manhã, a bomba explodiu: fui demitido do bar. Eles precisavam de alguém que pudesse ficar lá o dia todo, e eu não podia — não mais.
Saí do apartamento de Ravi com o coração pesado e a mente confusa, e horas depois, recebi a notícia que destruiu o pouco de terreno que me restava.
Sem emprego, sem dinheiro suficiente para a hospitalização do meu pai e com a faculdade — sempre meu sonho — mais uma vez em segundo plano.
Agora, sentada aqui no banheiro da faculdade, em meio a um silêncio pesado, minhas lágrimas começam a fluir incontrolavelmente.
Olho para o teste em minhas mãos, minha respiração falhando, meu peito apertado, sabendo o que estou prestes a ver.
A espera é cruel — cada segundo parece um castigo.
Medo, insegurança, esperança e dúvida se entrelaçam num nó impossível.
Sei que a vida nunca mais será a mesma depois disso.
E à medida que o resultado lentamente aparece, um arrepio gélido percorre meu corpo — pronto para enfrentar o que vier, mesmo que doa.
O símbolo aparece.
Duas linhas.
Dois.
Mesmo com os olhos embaçados pelas lágrimas, distorcendo a imagem, não há como negar. Está lá. Nítido. Definitivo.
Positivo.
Um soluço escapa da minha garganta e eu me curvo, escondendo o rosto nas mãos. O choro vem — abafado contra os joelhos, mas intenso o suficiente para me deixar sem fôlego. Um lamento silencioso, como se eu estivesse desmoronando por dentro enquanto o mundo lá fora continua girando, alheio ao fato de que tudo, absolutamente tudo, acaba de mudar.
Estou grávida.
Estou grávida... e sozinha.
O nome dele invade minha mente como uma punhalada: Ravi. A noite em que tudo mudou, a noite em que me entreguei, tentando esquecer a dor. Um momento de fuga, e agora... isto.
A dor no meu peito aperta. Não sei se é medo, culpa ou simplesmente o desespero de a realidade me engolir por completo.
Meu pai está doente. Estou desempregado. Meu diploma universitário está por um fio. E agora... isto.
Uma vida. Uma responsabilidade que cresce dentro de mim, mesmo quando tudo ao meu redor parece desmoronar.
Leva alguns minutos até que eu consiga respirar um pouco mais normalmente, até que as lágrimas sequem o suficiente para que eu possa me mover. Meus dedos ainda tremem enquanto enxugo o rosto com a manga, tentando parecer um pouco menos arrasada do que me sinto.
Coloquei o teste na minha bolsa como se fosse alguém escondendo uma bomba prestes a detonar e explodir tudo.
Saio do banheiro em passos lentos, tentando não chamar a atenção, embora saiba que meu rosto vermelho e olhos inchados revelam algo que as palavras ainda não conseguem explicar.
Atravesso o pátio da faculdade como se estivesse flutuando — distante, desconectada. Cada passo é pesado, arrastado, como se eu carregasse o peso do mundo nos ombros. E talvez eu carregue mesmo.
Chego ao ponto de ônibus e me sento no banco de madeira, abraçando a mim mesma, enquanto o vento frio de Londres corta meu rosto. O ônibus chega. Entro sem nem me dar conta da viagem, apenas seguindo o fluxo automático do meu corpo. Sento-me perto da janela e encosto a cabeça no vidro frio. As ruas de Londres passam como formas borradas — prédios, luzes, pessoas. Todos com suas rotinas, suas dores, suas vidas. Enquanto a minha está em pausa, à beira de um abismo que não sei se conseguirei atravessar.
Levo a mão à barriga, ainda sem saber se aquele toque é de afeto, negação ou desespero. O hospital surge à frente. Desço do ônibus com o coração apertado. Cada passo pelo corredor branco ecoa nos meus ouvidos como se estivesse chamando muita atenção para mim, como se todos soubessem do caos que carrego no peito. Aperto a alça da mochila contra o ombro, tentando manter a compostura. Tento respirar fundo, mas o ar parece preso entre a garganta e o coração.
Chego à ala onde meu pai está internado. Os mesmos corredores de sempre, as mesmas luzes frias, a mesma opressão no peito.
Empurro a porta devagar, como se tivesse medo do que vou encontrar.
Ele está lá, deitado como sempre — tão diferente do homem forte que me ensinou a andar de bicicleta, que me repreendeu por não usar casaco no frio e que chorou silenciosamente no aeroporto quando parti para Londres.
Agora, sua pele está mais pálida, seus olhos mais fundos. As máquinas ao seu redor emitem bipes lentos e constantes — quase como uma canção triste, daquelas que você ouve quando já conhece o final.
A tuberculose não progrediu, graças ao tratamento... mas também não regrediu. Ele permanece ali — estável, suspenso, como se vivesse entre a vida e algo que o puxa para longe de mim.
Aproximo-me e sento-me na beira da cama, com cuidado para não mexer nos fios. Meus dedos encontram os dele — agora finos e frágeis — e os envolvem delicadamente.
"Ei, pai..." minha voz sai baixa, rouca por tudo que guardei até agora.
Seus olhos se abrem lentamente. Um pequeno sorriso tenta se formar em seus lábios ressecados. Ele me olha como sempre fez — como se eu fosse sua maior conquista.
"Ei, meu pequeno..." sua voz é fraca, um sussurro quase irreconhecível, abafado pela tosse que se segue e que ele luta para conter.
Pego o copo d'água ao lado da cama e o ajudo a tomar um gole, apoiando sua cabeça com a outra mão. Ele bebe pouco, e mesmo esse pouco parece exigir muito esforço.
"Você foi à aula hoje?", ele pergunta, tentando manter a conversa como se tudo estivesse normal.
"Eu fiz..." Minto. Ou talvez não completamente. Eu estava na faculdade. Simplesmente não pude ficar.
Ele acena com a cabeça lentamente, cansado. Seus olhos me examinam atentamente. Talvez ele perceba meu rosto abatido, meus olhos inchados. Talvez ele saiba que algo está errado.
Mas ele não pergunta. Porque sempre foi assim entre nós. Ele espera que eu fale quando estiver pronta. E talvez, por enquanto, seja tudo o que eu preciso.
Ficamos sentados em silêncio por alguns minutos. Apenas o som das máquinas preenchendo a sala. Eu, com meus dedos entrelaçados aos dele. Ele, olhando para mim como se isso bastasse.
Então, a mão dele aperta a minha — fraca, mas firme o suficiente para fazer meus olhos se encherem de lágrimas novamente.
"Manu..." ele diz, com dificuldade, "eu sei que às vezes parece que o mundo está contra nós... mas você é mais forte do que pensa."
Mordo o lábio, lutando contra a onda de emoção.
"Não sei, pai. Às vezes sinto que estou me afogando."
Ele sorri — aquele sorriso pequeno e torto, mas cheio de sinceridade.
"Você sempre flutua, filha. Desde pequena. Você sempre encontra um jeito de nadar... mesmo no mar mais revolto."
As lágrimas finalmente caem.
"Estou com medo."
"Eu também", ele responde honestamente. "Mas uma coisa nunca vai mudar."
Eu o encaro, nossos olhares marejados se encontrando.
"O que?"
Ele sorri mais uma vez, fechando os olhos por um instante.
"Eu te amo, meu pequeno."
Eu me inclino sobre ele, encostando minha testa na dele — coração apertado, despedaçado, inteiro.
"Eu também te amo, pai. Muito."
E ali, naquele quarto de hospital, com o peso do mundo nas minhas costas e uma nova vida crescendo silenciosamente dentro de mim, tudo o que eu posso fazer... é continuar segurando a mão dele.
Só mais um pouquinho.
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